Conversas com a Sarah 

Aqui vão alguns registros de conversas com a Sarah que está cada vez mais ágil nas suas conclusões e eu amando muito. 

15/03/2017

Dia de greve de metro e eu precisava trabalhar, mesmo que em casa, uma amiga, mãe de outra pequena da escola se ofereceu para ficar com a Sarah e eu combinei de leva-la a tarde.  Pensa na felicidade da pequena independente, foi sem nem me dizer tchau direito. No final do dia fui busca-la, tinha brincado muito e estava muito feliz.

Já no carro, me diz:

– Mamãe, quero dormir na casa da Ana Luisa.

– Que bom, mas vamos ter que pedir para a tia Karla para ver se ela pode ficar com vc.

– Então liga para ela, mamãe!

 

27/03/2017

-Mamãe, a gente foi no museu e eu vi um homem pendurado.

-Ah é filha, ele estava machucado?

-Sim.

-E doeu?

-Não!

Sarah relatando a sua visita à igreja católica que aconteceu no sábado, onde ela percebeu pela primeira vez Cristo crucificado.

 

28/03/2017

Eu, Sarah e Lua (a gata) na cozinha.

A gata mia.

– Sarah, a lua está com fome, vamos dar comida para ela.

Ela já foi em direção ao armário, abriu a porta, pegou o pote de ração da Lua e colocou no potinho. Tudo sozinha! E eu observando toda orgulhosa da minha pequena mocinha!

-Muito bem Sarah!

Ela vira pra mim com um sorriso orgulhosa dela mesma e diz.

– Eu sou muito esperta!

 

28/03/2017

Na hora de colocar para dormir, leio uma historia para ela ou conto alguma inventada na hora. Gosto mais dessa segunda opção pq ela me ajuda a construir a narrativa e saem historias divertidas e que ela recorda com mais facilidade.

Pois bem, estamos na cama, nós duas juntas e eu comecei a contar uma historia.

– Mamãe da boca não, eu quero do livro!

 02/04/2017

Passeio no Playland num dia frio de SP, pela primeira vez!

-Filha, vc quer ir ao Carrocel?

-Simmmm!!

Vamos pra fila.

-Mamãe, eu vou no cavalinho preto e vc fica aqui para eu te dar tchau!  

Olha eu ali atrás, não tive coragem de deixa-la sozinha, mas foi a última, juro!!

Cantando Junto

Bem, quarta feira às onze horas da noite,  retornando para a minha casa do curso que estou fazendo, entro na Luz num metrô praticamente vazio sentindo Santana.

Sento num banco de costas para a janela, de frente para outro banco reservado a idosos; vejo um homem mais velho, de bermuda e camiseta, uma mochila nas costas, um colar de miçangas vermelho, papete nos pés e  um olhar atrás dos óculos diferente, com uma das pálpebras caídas. E ele me observava.

Nessa hora eu pressenti que ele sentiu algo em mim, ia vir conversar comigo.

Dito e feito. Em milésimos de segundo ele se encontrava do meu lado esquerdo, de pé e dirige a palavra à mim: moça, posso cantar uma música para você?

Na hora o meu coração fica apertadinho, eu olho em volta: algumas pessoas tinham percebido o movimento estranho do homem, mas não se pronunciam.

Eu digo a ele: Senhor, não faça isso.

Ele: Não é nada demais, eu gosto de cantar!

Eu: O Senhor fique a vontade para fazer o que quiser.

E ai, ele começa a cantar com uma voz de baritono, em alto e bom som a música

A Casinha Pequenina, na hora que ele começa a cantar, lembro da minha mãe com os seus primeiros cds e  agente cantando pela casa! Quando lançou o CD, ela comprou um aparelho que tocava 5 cds!!

http://letras.mus.br/silvio-caldas/656615/

A Casinha Pequenina

Silvio Caldas

Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu, ai ?
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu ?
Tinha um coqueiro do lado {
Que coitado de saudade {bis.
Já morreu. {
Tu não te lembras das juras, oh, perjura,
Que fizeste com fervor, ai ?
Tu não te lembras das juras, oh perjura,
Que fizeste com fervor ?
Daquele beijo demorado {
Prolongado que selou {bis
O nosso amor. {
Não te lembras, ó morena, da pequena
Casinha onde te vi, ai ?
Não te lembras, ó morena, da pequena
Casinha onde te vi ?
Daquela enorme mangueira {
Altaneira onde cantava {bis
O bem-te-vi. {
Não te lembras do cantar, do trinar
Do mimoso rouxinol, ai ?
Não te lembras do cantar, do trinar
Do mimoso rouxinol ?
Que contente assim cantava {
Anunciava o nascer {bis
Do flâmeo sol. {

No meio da música ele se perde… tenta lembrar várias vezes. Mas resolve recorrer à ajuda, abre a mochila e saca um caderninho em espiral de letras.

Nesse momento olha novamente em volta, um moço vai saltar na estação; olha para mim dá um sorriso e vai embora.

Nessa hora começo a refletir, porque eu estou me sentindo tão constrangida?

É só um senhor cantando músicas!

Procurando a letra da música em questão, ele acha outra. Carinhoso. http://letras.mus.br/pixinguinha/358582/

Carinhoso

Pixinguinha

Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim foges de mim

Ah, se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Pô, nessa música não tinha como não cantar junto.

Comecei timidamente a acompanhá-lo!

Acredito que vendo a minha empolgação, ele acha outra música: Felicidade.

http://letras.mus.br/caetano-veloso/44724/

Felicidade

Caetano Veloso

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

A minha casa fica lá de traz do mundo
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa quando começa a pensar

(2 X)
Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora

Na minha casa tem um cavalo tordilho
que é irmão do que é filho daquele que o Juca tem
E quando pego meu cavalo e encilho
Sou pior que limpa trilho e corro na frente do trem

Ai, eu já me vi cantando junto, em alto em bom som; com refrão empolgadíssima e desafinada.

Acabou a música, chegou a nossa estação.

Saímos, ele agradeceu a minha gentileza de deixá-lo cantar.

E eu o agradeci por fazer da minha volta pra casa mais leve e feliz.

Sai de lá com um sorriso no rosto, com uma sensação que a muito tempo não sentia. Fui eu mesma.

Lembranças #1

ou Tampa de Bueiro

Ocupando a calçada estreita por inteiro, grande, pesada, de concreto, meio solta. Não tenho escolha a não ser pisar nela. E neste momento lembro-me de uma amiga, Thais.

Não sei se por surperstição ou por algum trauma de ter já visto alguém cair naquele buraco com fundo, ela simplesmente não pisava, em nenhum. Pelo menos é assim que eu me lembro dela.

Caminhávamos rumo à estação de metrô, no trajeto universidade casa, uma descida íngreme  bem movimentada, com barracas de camelôs e vários bueiros pelo caminho com ou sem suas tampas. Andávamos como se estivéssemos desviando de cocos de cachorro, olhando para o chão, tomando todo cuidado. E quando não tinha opção de escapatória na própria calçada, lá estava ela na sarjeta da rua.

Thais não mora no Brasil há alguns anos, está do outro lado do mundo. E aí eu me pergunto, será que lá tem tampa de bueiro da qual ela tenha que desviar?

Aline Bianca de Almeida
25/10/2012
Em homenagem a você minha amiga, que mesmo longe, está perto.
Piegas eu sei. Mas é de coração