O motorista radialista

Numa tarde ensolarada e abafada, cheguei ao aeroporto confuso e pequeno da cidade de Porto Seguro. Na saída do desembarque leio o meu nome na folha sulfite impressa, nas mãos do motorista que vai me levar até a obra. É um pequeno momento que eu me acho importante, rs!

Assim que ele se apresenta, me impressiono com a sua voz: radialista na certa! Mas o que estaria fazendo ele ali? Vamos juntos para a cidade de Trancoso num caminho que demora mais de uma hora.

Durante o trajeto me conta que ele tem uma filha pequena de 3 anos que já sabe ligar para ele do celular (fiquei espantada com isso, como?) e que mora com a mãe, que não é sua esposa, numa casa que ele construiu em cima da casa da avó com todas as economias! Porque a filha dele não vai ficar sem casa, de jeito nenhum! Ele a vê quase todos os dias e demonstra um amor puro.  Mas com a ex-mulher, ele não fala mais, só trata com a avó da menina mesmo. Disse que ela já fez algumas confusões e conta detalhadamente uma história que os fez parar na delegacia.

Sobre ser radialista, na cidade onde ele nasceu ele chegou a trabalhar com isso, trabalhava num programa da noite, romântico (vocês conseguem imaginar a voz de radialista que eu ouvi: daquelas grossas com charme, iguais àqueles que traduziam as músicas em inglês?) Fez um sucesso danado, tinha fans até fã clube! Tinha que tomar cuidado com os namorados ciumentos da cidade, e achou ruim como isso conturbou a sua vida pessoal.

Enquanto radialista também era motorista de maquinário de agricultura, depois passou a ser motorista de caminhão, rodou o Brasil inteiro; não me recordo se foi por isso que acabou parando em Trancoso. A carreira de motorista pagou mais as suas contas do que a de radialista e continua agora como motorista de turista para ficar mais perto da filha.

Já o chamaram para apresentar alguns eventos de trancoso e está pensando em participar numa rádio local, afinal, recebe muitos elogios.

De repente chegamos a pousada eu lhe desejo sucesso e um até logo.

 

A operadora de caixa.

Sexta feira, depois de um dia inteiro de trabalho, estou no supermercado conforme o combinado com o marido. Vamos tirar logo esse item da lista para livrar o nosso final de semana! É, já tentamos fazer compra de mês, mas não deu certo, então fazemos comprinhas semanais para abastecer a nossa casa.

Depois do última verificada se não está faltando nada dá lista, vamos, eu e os meus pensamentos, para o caixa: vazio! Fazer compra na sexta feira tem suas vantagens!

Coloco toda a compra na esteira me direciono para a caixa que me pergunta:

– CPF na nota?

– Não, obrigada!

Não sei como exatamente a conversa iniciou, mas ela relata que está cansada pois todos os dias cuida do seu filho que estava acamado. Que agora ele está bem melhor, pois já fala e reclama.. ah como reclama.

– Mas como ele ficou de cama?

– Acidente de moto, um microônibus bateu nele!

– É, esse transisto de SP com motos é muito perigoso mesmo!

-Nada, foi no quarteirão de casa! A gente que insistiu para ele pegar a moto e dar uma volta. Ele não gosta! Estava ele e a esposa. Ela ficou só com um arranhão. Ele, quase morreu.

Quebrou algumas costelas, uma perna; foi mais de mês internado no hospital público, criou uma ferida nas costas deste tamanho (abriu as mãos no formato de uma melancia mais ou menos ) dava para ver o osso do quadril! Naquela hora desabei, não podia com sangue, Deus me testou, mas fui forte! Já tem quase seis meses do acidente e a ferida é só uma casquinha do tamanho do meu dedão.

Se não fosse a ajuda dos outros não sei como seria, minha família me ajudou muito sabe. Porque sou só eu que coloco dinheiro na casa, a esposa dele não trabalha, cuida dos dois netinhos que eu tenho, lindos!

O governo não me dá nada de remédios, o que eu gastei com gases e fraldas, vc não imagina. Teve um remédio que ele tomou que custou 200 reais para 3 dias! Só por Deus o dinheiro que apareceu para eu pagar tudo isso.

Agora ele está bem, come que é uma beleza. Está até gordo demais! Sabia que soro engorda? Ele já era forte, mas perdeu os músculos, foi muito soro enquanto esteve internado. Mais um mês ele se recupera de vez e eu saio de férias! Não vejo a hora de ficar sozinha e passear!

– Que ótimo! Boa noite, obrigada!

 

Pequenos gestos

Eu sou daquelas pessoas que gosta de observar enquanto caminho, dirijo e sou passageira. Sabe, aquela pessoa meio avoada que com certeza vc já viu tropeçando na calçada? Essa sou eu.  E eu só percebi esse meu jeito de ser com a companhia da minha filha, pois passei a verbalizar.

Filha, olha o passarinho no céu, ele está cantando e voando. É para chamar os amiguinhos deles! Filha, vc viu que tem formiguinhas no chão, elas caminham carregando coisas muiito pesadas nas costas para as suas casas. Vamos achar a casa delas? Não pise!

Ontem eu comecei a registrar algumas coisas, pensando na possibilidade da Sarah estar ao meu lado, já que ela não está. Viu como filhos mudam o nosso olhar.

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E hoje eu recebi um pequeno gesto do marido pela manhã, mesmo cansado ele me enviou uma música, pode ter sido sem intenções, mas eu considerei uma linda declaração de amor.